Pseudofoliculite da Barba: o que é e por que é tão comum em pessoas negras?

A pseudofoliculite da barba (PFB), popularmente conhecida como “pelos encravados” e  “alergia à lâmina de barbear”, é uma condição muito comum, especialmente entre homens negros. 

Estudos mostram que entre 45% e 83% deles desenvolvem PFB em algum momento da vida, principalmente entre os 14 e 25 anos. Mulheres podem apresentar o problema, especialmente na região do queixo quando há aumento de pelos ou após a menopausa. 

Mas, afinal, o que é essa condição?

A PFB é uma inflamação causada por pelos que crescem curvados e acabam penetrando a própria pele. É muito comum no pescoço e na região da barba, mas pode aparecer também nas axilas, pernas, virilha e couro cabeludo – ou seja, em qualquer área depilada. Pode vir associada com hiperpigmentação pós‐inflamatória e queloides.

Fonte: Ogunbiyi, 2019

Por que é mais comum em pessoas negras?

1. Formato do fio: o cabelo crespo possui formato espiralado e o folículo onde ele nasce também é mais curvado, o que facilita que o fio volte e “fure” a pele ao crescer.

2. Espessura do fio: pelos mais grossos e rígidos penetram a pele com mais facilidade quando cortados rente demais.

3. Genética: um gene chamado K6hf, mais comum em pessoas negras, aumenta em até 6 vezes a chance de desenvolver PFB. Ele deixa a estrutura do fio mais propensa a encravar. 

Resultado: mesmo uma depilação comum pode gerar inflamação repetida.

Na história:

Durante o século XX, especialmente após a integração racial das Forças Armadas americanas em 1948, milhares de recrutas negros passaram a sofrer com PFB induzida pelo barbear obrigatório.

Na prática, muitos enfrentavam um dilema:

  • seguir as ordens e desenvolver lesões dolorosas;
  • deixar crescer a barba e sofrer punições disciplinares.

Relatos históricos descrevem soldados recebendo advertências, avaliações negativas e até limitações de carreira por não conseguirem manter o padrão de barbear exigido. A condição chegou a ser interpretada por alguns superiores como falta de disciplina ou negligência com a aparência, quando na verdade representava uma doença dermatológica.

A partir das décadas de 1970 e 1980, dermatologistas militares produziram evidências robustas demonstrando que a PFB tinha forte associação com a curvatura dos pelos e era muito mais frequente em homens negros.

Isso levou à criação das chamadas “shaving waivers” — autorizações médicas que permitiam ao militar manter barba curta sem sofrer punições disciplinares. Essas dispensas tornaram-se um marco importante na adaptação das normas militares à diversidade biológica da tropa.

Como identificar a pseudofoliculite

Os sintomas costumam aparecer 1 ou 2 dias após barbear:

  • Pápulas (ou “bolinhas”) vermelhas, escuras ou arroxeadas com pontos de pus (pústulas), coceira ou dor.

Fonte: Winter, 2004

  • Pelos enrolados ou visíveis dentro da pele, às vezes formando um “sulco”.
  • Manchas escuras (hiperpigmentação pós-inflamatória).
  • Em casos crônicos: cicatrizes e até queloides.

Fonte: Conceição, 2024.

Em pessoas negras, as manchas escuras são especialmente visíveis e persistentes, o que reforça a importância do diagnóstico precoces.

Como prevenir a pseudofoliculite

1. Cuidados pré e pós-barbear: aplique uma porção generosa do creme de barbear e deixe agir por 5-10 min antes do procedimento. Isso ajuda a amaciar o pelo. Lave suavemente a área da barba com movimentos circulares utilizando uma esponja ou escova de barbear por alguns minutos diariamente, isso ajuda a liberar os fios presos.

2. Troque a lâmina frequentemente: lâminas cegas pioram a irritação.

3. As recomendações de barbear na direção do crescimento do pelo e de reduzir a frequência do barbear não têm eficácia comprovada. O importante é utilizar lâminas com protetor de pele. Uma alternativa excelente é o aparador elétrico. 

4. Evite depilar com cera, pinça ou a seco: aumentam muito o risco de penetração interna do fio.

5. Reduzir suor excessivo, calor e fricção (roupas apertadas).

Quando procurar um dermatologista?

  • A inflamação está sempre voltando
  • Existem manchas escuras persistentes
  • Há cicatrizes e queloides
  • A barba dói muito ou tem pústulas frequentes
  • Há dúvida entre PFB e outras doenças (acne, fungos, foliculite infecciosa)

Com a avaliação do dermatologista e de acordo com a gravidade do caso, pode-se indicar tratamentos tópicos, orais ou procedimentos, como o laser.  

Não se esqueça: pseudofoliculite da barba não ocorre por falta de higiene, mas sim por motivos anatômicos e genéticos. Os métodos para prevenir a pseudofoliculite da barba são de extrema importância, mas quando necessário, busque atendimento especializado.

Referências bibliográficas

  1. ALCHORNE, M. M. DE A.; ABREU, M. A. M. M. DE . Dermatologia na pele negra. Anais Brasileiros de Dermatologia, v. 83, n. 1, p. 7–20, jan. 2008. 
  2. WINTER, Hermelita; et al. An unusual Ala12Thr polymorphism in the 1A α-helical segment of the companion layer-specific keratin K6hf: evidence for a risk factor in the etiology of the common hair disorder pseudofolliculitis barbae. Journal of Investigative Dermatology, v. 122, n. 3, p. 652-655, 2004.
  3. OGUNBIYI, Adebola. Pseudofolliculitis barbae: current treatment options. Clinical, Cosmetic and Investigational Dermatology, v. 12, p. 241–247, 2019. DOI: 10.2147/CCID.S149250.
  4. SILVA TONINI, G.; DE OLIVEIRA FARIA, J.; OLIVEIRA, L. D. FOLICULITE: REVISÃO DE LITERATURA : FOLLICULITIS: LITERATURE REVIEW. Ensaios USF, [S. l.], v. 6, n. 2, 2023. DOI: 10.24933/e-usf.v6i2.291. Disponível em: https://ensaios.usf.edu.br/ensaios/article/view/291. 
  5. TSHUDY, Michael T.; CHO, Sunghun. Pseudofolliculitis barbae in the U.S. Military: a review. Military Medicine, v. 186, n. 1–2, p. e52–e57, 2021.
  6. CONCEIÇÃO, Katleen da C.; BARRAZA, Leonardo L.; ARAUJO, Ana Carolina G. dos Santos de. Dermatologia para pele negra. Barueri: Manole, 2024. E-book. p.31. ISBN 9788520465608. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788520465608/. Acesso em: 05 dez. 2025.
  7. Tshudy MT, Cho S. Pseudofolliculitis barbae in the U.S. military: a review. Mil Med. 2021;186(1-2):e52-e57. doi:10.1093/milmed/usaa243. 

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